Hoje, Caetano cantou. Não ao vivo, mas por meio de caixas de som. Ainda sim, era seu canto, sua voz que ecoava pelo ar acompanhado de uma melodia serena, pura e intensa. Ao som da música, um coração palpitando com calma, sentindo, a cada pulsar, a vida, o sangue correndo. O tímpano vibrando, fazendo acordes transformarem-se em pensamentos, dando à audição e à imaginação uma forma só: indefinível, mas perfeita. Aos poucos, o tato em suas primeiras sensações - um recém nascido a descobrir a textura de tudo ao seu redor, sentindo a friagem do vento que bate em sua pele. A pele que treme, o pulmão que se enche... a vida que existe. E, então, surgem as flores: as que não existem, mas preenchem as narinas com o seu perfume e deslumbram os olhos com suas cores. E quando o corpo ganha tal leveza diante das sensações, a canção o envolve em um abraço reconfortante. Um momento infindável. Ah, a música!
E, se a vida tímida, ainda flor pequena que desabrocha em meio ao solo árido, renova-se e reencontra o ser inerte, é porque um dia houve um riso, houve, enfim, uma felicidade. E, se não fosse dia, perder-me-ia admirando a lua, para encontrar aqueles que amo longe dos efeitos do tempo, nas condições sublimes em que a música se pronuncia e para a qual nos transporta. Então, sem que houvesse som ao meu redor, sei que ouviria Caetano cantando dentro de mim, pois foi sobre a lua que um dia tu também pousaras os olhos.
domingo, 26 de setembro de 2010
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Despedida
Há um texto pronto para a ocasião, mas, ao contrário dos outros dias, hoje vou preferir o silêncio.
Se algo ainda realmente importa, já foi dito. Verbalmente, eu sei: os textos carregam muito pouco de minha história dos últimos dois anos. Todavia, agora é só a brisa levando consigo uma folha seca. Calmaria.
A despedida é, sobretudo, triste, pois nenhuma partida é feliz.
Então que a folha encontre seu repouso sobre solo infértil, para fertilizá-lo, e que, ao meu corpo curvar-se em agradecimento, uma palavra sussurrada seja ouvida, pois é assim que eu digo "adeus".
Se algo ainda realmente importa, já foi dito. Verbalmente, eu sei: os textos carregam muito pouco de minha história dos últimos dois anos. Todavia, agora é só a brisa levando consigo uma folha seca. Calmaria.
A despedida é, sobretudo, triste, pois nenhuma partida é feliz.
Então que a folha encontre seu repouso sobre solo infértil, para fertilizá-lo, e que, ao meu corpo curvar-se em agradecimento, uma palavra sussurrada seja ouvida, pois é assim que eu digo "adeus".
sábado, 10 de julho de 2010
Bagatela
Estou fraca e cansada. Embora sinta uma necessidade absurda de me expressar, tenho dificuldade para encontrar o que dizer, as poucas palavras que consigo formar são intrincadas e pouco lógicas. Sinto um peso denso dentro de mim que se altera com um completo vazio. O ar foi sugado de mim, levando consigo grande parte da minha força. Estou fraca e já quase sem esperança...
"Havia um brilho diferente em seu olhar e eu soube, naquele instante, que ela sentia medo. Percorrêramos os quatro cantos da cidade durante as horas da madrugada e naquele momento - a poucos minutos do amanhecer - escondidos no sótão de uma casa abandonada, sentíamos o peso do fracasso. Nossos esforços não foram suficientes. Sentados no chão empoeirado, ouvíamos a chuva bater com força nas telhas sobre nossas cabeças. Antes de tudo, era uma chuva triste.
Ela, então, abriu a mão e deixou escapar por entre seus dedos um objeto metálico, que se chocou com a madeira em um tilintar agudo, porém abafado: o som da esperança. Pude ver, por meio da iluminação fraca de uma lanterna, uma chave pesada, que reluzia um brilho embaçado. Sabia do que se tratava e o que ela esperava de mim. Assenti com a cabeça, apanhando a chave. Apressado, dirigi-me à saída do sótão, procurando com os pés a escada que me levaria ao andar de baixo, apoiando-me nela desastradamente até conseguir descer. Chegando ao chão, ouvi batidas violentas na porta da frente. Haviam nos encontrado..."
"Havia um brilho diferente em seu olhar e eu soube, naquele instante, que ela sentia medo. Percorrêramos os quatro cantos da cidade durante as horas da madrugada e naquele momento - a poucos minutos do amanhecer - escondidos no sótão de uma casa abandonada, sentíamos o peso do fracasso. Nossos esforços não foram suficientes. Sentados no chão empoeirado, ouvíamos a chuva bater com força nas telhas sobre nossas cabeças. Antes de tudo, era uma chuva triste.
Ela, então, abriu a mão e deixou escapar por entre seus dedos um objeto metálico, que se chocou com a madeira em um tilintar agudo, porém abafado: o som da esperança. Pude ver, por meio da iluminação fraca de uma lanterna, uma chave pesada, que reluzia um brilho embaçado. Sabia do que se tratava e o que ela esperava de mim. Assenti com a cabeça, apanhando a chave. Apressado, dirigi-me à saída do sótão, procurando com os pés a escada que me levaria ao andar de baixo, apoiando-me nela desastradamente até conseguir descer. Chegando ao chão, ouvi batidas violentas na porta da frente. Haviam nos encontrado..."
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Abraço ao passado
"Há cerca de um mês, contaram-me sobre um senhor que, tendo sofrido com uma doença nas vias respiratórias (creio que um câncer), tinha grande dificuldade para falar. Na falta da expressão oral, ele levava consigo diversos papeizinhos com piadas que distribuía para as pessoas ao seu redor. 'Que graça', não? Bem... para mim, esta é uma das formas mais simples de fazer a diferença. Mesmo sem conhecê-lo, sou sua admiradora..."
Inquietude. A escuridão envolvia seu corpo, o chão recolhia a água que lhe escapava pelos olhos. Por fora, braços e pernas rígidos, mãos que seguravam com força a cabeça, um tremor periódico. Por dentro, angústia, algo praticamente palpável que buscava uma fuga, rasgando-lhe o coração, embrulhando-lhe o estômago. Era uma garota de olhos inchados e corpo encolhido. O que sentia não era capaz de dar a ela movimento, apenas de corroê-la lentamente, arranhando a sua alma e abrindo fendas na sua esperança. O dia já tinha exaurido suas forças. Estava cansada, mas a cabeça continuava a dar voltas, percorrendo os caminhos mais estreitos e desgastantes de sua memória, colocando diante dos seus olhos o que ela não queria lembrar. Contudo, lembrava. Lembrava de um sorriso e de um abraço, misturados a despedida e a pedaços quebrados de um copo. Uma corda, um beijo roubado e frases difíceis de se ouvir completavam o quadro confuso. O ar parecia se recusar a entrar em seus pulmões e ela aspirava com força. Aguardava a chegada de um dia e desejava as malas feitas: uma fuga. Enquanto isso, esperava que o caminhar das horas a adormecesse para que os relâmpagos de imagens e sons de sua mente a deixassem só, abraçada pela densidade das sombras e reconfortada pela frieza do chão. Tudo em um completo silêncio.
"...Pois a beleza está em fazer rir aqueles que não esperam pelo riso."
Inquietude. A escuridão envolvia seu corpo, o chão recolhia a água que lhe escapava pelos olhos. Por fora, braços e pernas rígidos, mãos que seguravam com força a cabeça, um tremor periódico. Por dentro, angústia, algo praticamente palpável que buscava uma fuga, rasgando-lhe o coração, embrulhando-lhe o estômago. Era uma garota de olhos inchados e corpo encolhido. O que sentia não era capaz de dar a ela movimento, apenas de corroê-la lentamente, arranhando a sua alma e abrindo fendas na sua esperança. O dia já tinha exaurido suas forças. Estava cansada, mas a cabeça continuava a dar voltas, percorrendo os caminhos mais estreitos e desgastantes de sua memória, colocando diante dos seus olhos o que ela não queria lembrar. Contudo, lembrava. Lembrava de um sorriso e de um abraço, misturados a despedida e a pedaços quebrados de um copo. Uma corda, um beijo roubado e frases difíceis de se ouvir completavam o quadro confuso. O ar parecia se recusar a entrar em seus pulmões e ela aspirava com força. Aguardava a chegada de um dia e desejava as malas feitas: uma fuga. Enquanto isso, esperava que o caminhar das horas a adormecesse para que os relâmpagos de imagens e sons de sua mente a deixassem só, abraçada pela densidade das sombras e reconfortada pela frieza do chão. Tudo em um completo silêncio.
"...Pois a beleza está em fazer rir aqueles que não esperam pelo riso."
domingo, 27 de junho de 2010
Volta ao lar
E, mais uma vez, o regresso. Tal como um viajante, que parte para longínquos lugares e, quando a saudade se pronuncia com fervor em seu peito (talvez por desilusão ou por encontrar uma rotina pouco promissora), retorna a casa, eu volto às palavras. Trago os olhos úmidos, a cabeça borbulhando e a mala repleta de histórias.
As lágrimas surgidas da felicidade e da tristeza; o borbulhar que dificulta a transformação dos sentimentos em expressões, desfazendo a concentração; as histórias que, ensimesmadas em suas belezas e contradições, falam por si só.
Todavia, o que tenho comigo de mais valioso é um aprendizado inacabado, mais propriamente uma dúvida. O assunto é "limite".
Se da dúvida surge o medo e, deste, o caos, qual pode ser a solução? Uma resposta, afinal era a falta dela a fonte do problema. É por isso que venho, humildemente, em sua busca. Talvez a única grande questão sobre a qual me pautei nos últimos tempos, a única interrogação que foge ao "nada" pelo qual tenho me guiado - talvez não fielmente, mas esperançosamente - seja simples demais para requerer uma resposta objetiva: qual é o limite?
Limite para sonhar, limite para fazer o que deseja, limite para a sinceridade, limite para amar alguém...
Se a ponderação fosse o foco, as possíveis respostas seriam: deve-se sonhar o suficiente para desejar algo e lutar por isso, sem nunca deixar de manter os pés sobre a realidade. Deve-se fazer o que traz felicidade, sem nunca esquecer as responsabilidades e o respeito ao próximo. Deve-se ser sincero até o ponto em que a sinceridade não ofenda, nem magoe alguém ou, ainda, permita a alguém o magoar. Deve-se amar alguém como ama a si mesmo, com respeito, suavidade e nunca com uma intensidade capaz de ferir alguém, você ou quem se ama.
Certas ou erradas, são respostas. Entretanto... onde se encontra a magia em meio a tantas restrições? Se a vida é única, então por que não fazê-la intensa? Sempre com respeito e consciência, por que não sonhar infinitamente? Não vestir as asas da imaginação e voar livremente? Por que não fazer o que se quer, abandonando algumas responsabilidades para conquistar outras? Por que não ser inteiro alma, não com uma sinceridade voraz, mas íntegra, pacífica e singela, mas, ainda sim, irrestrita? Por que não amar com a grandeza que o sentimento merece? Um amor fiel, indestrutível e completo?
Talvez porque, embora a vida seja única, ela é longa... e viver um único dia com a toda a intensidade que deve ser distribuída entre todos os outros pode ser um grande erro.
Então... é esse o limite?
As lágrimas surgidas da felicidade e da tristeza; o borbulhar que dificulta a transformação dos sentimentos em expressões, desfazendo a concentração; as histórias que, ensimesmadas em suas belezas e contradições, falam por si só.
Todavia, o que tenho comigo de mais valioso é um aprendizado inacabado, mais propriamente uma dúvida. O assunto é "limite".
Se da dúvida surge o medo e, deste, o caos, qual pode ser a solução? Uma resposta, afinal era a falta dela a fonte do problema. É por isso que venho, humildemente, em sua busca. Talvez a única grande questão sobre a qual me pautei nos últimos tempos, a única interrogação que foge ao "nada" pelo qual tenho me guiado - talvez não fielmente, mas esperançosamente - seja simples demais para requerer uma resposta objetiva: qual é o limite?
Limite para sonhar, limite para fazer o que deseja, limite para a sinceridade, limite para amar alguém...
Se a ponderação fosse o foco, as possíveis respostas seriam: deve-se sonhar o suficiente para desejar algo e lutar por isso, sem nunca deixar de manter os pés sobre a realidade. Deve-se fazer o que traz felicidade, sem nunca esquecer as responsabilidades e o respeito ao próximo. Deve-se ser sincero até o ponto em que a sinceridade não ofenda, nem magoe alguém ou, ainda, permita a alguém o magoar. Deve-se amar alguém como ama a si mesmo, com respeito, suavidade e nunca com uma intensidade capaz de ferir alguém, você ou quem se ama.
Certas ou erradas, são respostas. Entretanto... onde se encontra a magia em meio a tantas restrições? Se a vida é única, então por que não fazê-la intensa? Sempre com respeito e consciência, por que não sonhar infinitamente? Não vestir as asas da imaginação e voar livremente? Por que não fazer o que se quer, abandonando algumas responsabilidades para conquistar outras? Por que não ser inteiro alma, não com uma sinceridade voraz, mas íntegra, pacífica e singela, mas, ainda sim, irrestrita? Por que não amar com a grandeza que o sentimento merece? Um amor fiel, indestrutível e completo?
Talvez porque, embora a vida seja única, ela é longa... e viver um único dia com a toda a intensidade que deve ser distribuída entre todos os outros pode ser um grande erro.
Então... é esse o limite?
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
Achados e perdidos
Um trecho perdido, mas que, entre se perder em um tumulto de arquivos desordenados e se perder aqui, prefiro que seja aqui:
"Talvez aquela fosse uma maneira de agradecer ou apenas um método de pedir ajuda. Seja como for, não há mais tempo para arrependimentos: a carta guardada em um envelope pardo, neste tempo, já está cercada por centenas de outras correspondências das mais diversas formas e tamanhos. Com destino distante, é possível que minhas palavras demorem a chegar, mas tenho todo o tempo do mundo na espera de uma resposta e, assim, há uma chance de voltar a sorrir novamente... Então espero, observando a fina chuva de dezembro molhar a copa das árvores ao longo da rua, em uma reflexão pouco precisa, mas sincera.
Certas buscas pessoais começam com perguntas, outras, com respostas. Tudo em uma oscilação complementar entre os que procuram desvendar a vida na sede de suas curiosidades e questionamentos, e entre os que traçam seus objetivos sobre certezas voláteis, com a convicção de que se tornará realidade tudo o que planejam, como a casa tão desejada ou o casamento perfeito. Entre duas alternativas, optei encarar o mundo de uma terceira forma: o nada. Sem perguntas específicas, sem respostas promissoras, sem, ao menos, qualquer sentimento explicável ou traduzível. Era apenas um grande vazio com medo das eventuais dúvidas e, mais ainda, das possíveis respostas. E era esse medo que preenchia meus segundos e me ensinava o desencanto, a frieza das ações, a constante vontade de chorar e a aspereza a muitas pessoas..."
Há uma falta tão grande aqui.
"Talvez aquela fosse uma maneira de agradecer ou apenas um método de pedir ajuda. Seja como for, não há mais tempo para arrependimentos: a carta guardada em um envelope pardo, neste tempo, já está cercada por centenas de outras correspondências das mais diversas formas e tamanhos. Com destino distante, é possível que minhas palavras demorem a chegar, mas tenho todo o tempo do mundo na espera de uma resposta e, assim, há uma chance de voltar a sorrir novamente... Então espero, observando a fina chuva de dezembro molhar a copa das árvores ao longo da rua, em uma reflexão pouco precisa, mas sincera.
Certas buscas pessoais começam com perguntas, outras, com respostas. Tudo em uma oscilação complementar entre os que procuram desvendar a vida na sede de suas curiosidades e questionamentos, e entre os que traçam seus objetivos sobre certezas voláteis, com a convicção de que se tornará realidade tudo o que planejam, como a casa tão desejada ou o casamento perfeito. Entre duas alternativas, optei encarar o mundo de uma terceira forma: o nada. Sem perguntas específicas, sem respostas promissoras, sem, ao menos, qualquer sentimento explicável ou traduzível. Era apenas um grande vazio com medo das eventuais dúvidas e, mais ainda, das possíveis respostas. E era esse medo que preenchia meus segundos e me ensinava o desencanto, a frieza das ações, a constante vontade de chorar e a aspereza a muitas pessoas..."
Há uma falta tão grande aqui.
domingo, 27 de setembro de 2009
Abstrata aridez
Resto de carniça sobre a secura dura do chão. Ossos espalhados ao redor, cantando o som da morte. Uma única poça d'água ao longo da extensão desértica, o rosto de um homem refletido sobre o barro. Água suja, provavelmente de algum viajante que a jogara ali por estar contaminada: quase todas as raras reservas fluviais das redondezas estavam naquele estado.
Seu rosto barbado e com sulcos profundos, resultado de uma erosão que lhe atingia a pele, se contorcia em um grito franzino, ralo, anêmico. Suas cordas vocais já não respondiam como outrora, estavam mudas em respeito à morte que as cercavam. Contudo, sua expressão ainda era viva, e esta urrava, soltando todo o seu fôlego, impedido de sair, em contorções de dor. Pura dor, ódio e desespero. Ele morreria tal como nascera: fraco, triste, seco, morto.
Os olhos, no brilho da água, fecharam-se. A face colidiu com a umidade e o solo rígido, fazendo gotas respingarem em seu cabelo desgrenhado, acompanhadas do último som que ouviu em vida: o da sua face colidindo com a terra. Desacordado, não sentia o cianureto percorrendo suas veias.
Seu rosto barbado e com sulcos profundos, resultado de uma erosão que lhe atingia a pele, se contorcia em um grito franzino, ralo, anêmico. Suas cordas vocais já não respondiam como outrora, estavam mudas em respeito à morte que as cercavam. Contudo, sua expressão ainda era viva, e esta urrava, soltando todo o seu fôlego, impedido de sair, em contorções de dor. Pura dor, ódio e desespero. Ele morreria tal como nascera: fraco, triste, seco, morto.
Os olhos, no brilho da água, fecharam-se. A face colidiu com a umidade e o solo rígido, fazendo gotas respingarem em seu cabelo desgrenhado, acompanhadas do último som que ouviu em vida: o da sua face colidindo com a terra. Desacordado, não sentia o cianureto percorrendo suas veias.
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