quarta-feira, 17 de junho de 2009

Um pouco mais?

Meses depois, e eu diria que tudo mudou. Tudo. E o que eu mais me pergunto é: como as coisas aconteceram? Foi tão rápido, que só me dei conta quando já estava lá; foi tão intenso, que devastou tudo o que eu conhecia e deixou apenas ruínas, esperando serem reconstruídas, mas nunca como um dia foram; foi tão assustador, que só sobrou o medo e a tristeza.

E, imersa na falta de sentido em que me encontro, um texto surge... vazio, sem conteúdo, mas, ainda sim, um texto.
Um pouco mais de mim? Quiçá, um pouco mais.




O ruído incessante ressoava, misturado ao som da chuva ácida palpitante sobre a lataria do veículo velho e ao estrondo do motor desgastado, preenchendo os bancos vazios e incutindo medo às almas despreparadas. Era um ruído tenso, produzido pelo atrito do pára-brisa com o vidro. Estes se raspavam fazendo-se ouvir um surdo choro metálico interrompido pelo silêncio da espera. Através dos vidros embaçados, a noite densa só permitia identificar um longínquo borrão no céu: a lua, cheia e atenta, que observava os dois únicos passageiros do ônibus que sacolejava por entre ruas estreitas.
Ele, sentado ao fundo, com o capuz da blusa cobrindo parte da face, mantinha os olhos fixos na senhora, de cabelos brancos e presos, sentada três bancos à sua frente. Estava frio e, a cada minuto decorrido, seu corpo congelava mais. Ele estava próximo ao fim, sabia disso, e, quando aquela senhora o olhasse com seus olhos vagos e seu sorriso doentio, não haveria alternativa a não ser fazer o que tanto fora evitado até então. Contudo, ela não olhava, apenas se mantinha imóvel, com a fronte voltada para uma das lâmpadas amarelas do interior do veículo, que quebravam a escuridão, mas instigavam mais medo, devido às sombras produzidas.
O ônibus foi reduzindo sua velocidade, seu destino se aproximava. Com o cabelo sobre o olho, esperando o momento certo, ele apertava com força a carta que mantinha guardada no bolso de seu agasalho, amassando o papel. “Eu preciso de você”, era o que estava escrito na última linha, com tinta azul em letra cursiva, trêmula e inclinada. Em pouco tempo, somado a todos os sons mórbidos do local, o agudo grito produzido pelo freio enferrujado fez-se audível; o cobrador acordou; o motorista tossiu; e a porta traseira se abriu. Ele saltou do veículo, com os olhos ainda fixos na mulher e, antes que pudesse mergulhar na noite chuvosa, viu sua cabeça se voltando lentamente para trás, mas não enxergou seus olhos.
Havia poucos ônibus parados no terminal e nenhuma pessoa fora deles. Ele abaixou a cabeça e apertou o passo, seguindo qualquer direção, sem rumo, mas sabendo aonde iria chegar.




Inútil.