domingo, 27 de setembro de 2009

Abstrata aridez

Resto de carniça sobre a secura dura do chão. Ossos espalhados ao redor, cantando o som da morte. Uma única poça d'água ao longo da extensão desértica, o rosto de um homem refletido sobre o barro. Água suja, provavelmente de algum viajante que a jogara ali por estar contaminada: quase todas as raras reservas fluviais das redondezas estavam naquele estado.
Seu rosto barbado e com sulcos profundos, resultado de uma erosão que lhe atingia a pele, se contorcia em um grito franzino, ralo, anêmico. Suas cordas vocais já não respondiam como outrora, estavam mudas em respeito à morte que as cercavam. Contudo, sua expressão ainda era viva, e esta urrava, soltando todo o seu fôlego, impedido de sair, em contorções de dor. Pura dor, ódio e desespero. Ele morreria tal como nascera: fraco, triste, seco, morto.
Os olhos, no brilho da água, fecharam-se. A face colidiu com a umidade e o solo rígido, fazendo gotas respingarem em seu cabelo desgrenhado, acompanhadas do último som que ouviu em vida: o da sua face colidindo com a terra. Desacordado, não sentia o cianureto percorrendo suas veias.