Ledo engano da felicidade, luta voraz contra a fugacidade. Contaria ao mar os segredos guardados, para que ele os afogasse em suas ondas, calando todo um passado que teima em falar ao pé do ouvido. No entanto, as águas salgadas ocupam-se com seu ir e vir, sem atentar aos sentimentos humanos, tão pequenos diante da infinidade espacial. E todo um vácuo surge ao peito, sugando forças e luz, tão denso que pesa, tão áspero que fere.
Seria o cansaço do tema? Uma infinidade de decepções só faz concluir que o alvo é, na verdade, o agente. E o mundo inverte-se sob uma nova ótica! Tristeza e felicidade confundem-se: os olhos chorosos guardam, em si, sorrisos sinceros. E a conturbação inibe o nascimento de qualquer sentimento perene.
Poderia escrever indiscriminadamente, mas a verdade é que senti tristeza ao ver um homem sonhar com algo impossível, senti-me vazia ao fazer da dor de outrem a minha, senti desilusão ao deparar-me com o descaso, senti-me morta quando partiram, senti-me, enfim, infantil por tornar a acreditar.
Agora resta a imobilidade na espera de um abraço. Um longo e duradouro abraço.
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
domingo, 26 de setembro de 2010
Hoje, Caetano cantou
Hoje, Caetano cantou. Não ao vivo, mas por meio de caixas de som. Ainda sim, era seu canto, sua voz que ecoava pelo ar acompanhado de uma melodia serena, pura e intensa. Ao som da música, um coração palpitando com calma, sentindo, a cada pulsar, a vida, o sangue correndo. O tímpano vibrando, fazendo acordes transformarem-se em pensamentos, dando à audição e à imaginação uma forma só: indefinível, mas perfeita. Aos poucos, o tato em suas primeiras sensações - um recém nascido a descobrir a textura de tudo ao seu redor, sentindo a friagem do vento que bate em sua pele. A pele que treme, o pulmão que se enche... a vida que existe. E, então, surgem as flores: as que não existem, mas preenchem as narinas com o seu perfume e deslumbram os olhos com suas cores. E quando o corpo ganha tal leveza diante das sensações, a canção o envolve em um abraço reconfortante. Um momento infindável. Ah, a música!
E, se a vida tímida, ainda flor pequena que desabrocha em meio ao solo árido, renova-se e reencontra o ser inerte, é porque um dia houve um riso, houve, enfim, uma felicidade. E, se não fosse dia, perder-me-ia admirando a lua, para encontrar aqueles que amo longe dos efeitos do tempo, nas condições sublimes em que a música se pronuncia e para a qual nos transporta. Então, sem que houvesse som ao meu redor, sei que ouviria Caetano cantando dentro de mim, pois foi sobre a lua que um dia tu também pousaras os olhos.
E, se a vida tímida, ainda flor pequena que desabrocha em meio ao solo árido, renova-se e reencontra o ser inerte, é porque um dia houve um riso, houve, enfim, uma felicidade. E, se não fosse dia, perder-me-ia admirando a lua, para encontrar aqueles que amo longe dos efeitos do tempo, nas condições sublimes em que a música se pronuncia e para a qual nos transporta. Então, sem que houvesse som ao meu redor, sei que ouviria Caetano cantando dentro de mim, pois foi sobre a lua que um dia tu também pousaras os olhos.
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