Hoje, Caetano cantou. Não ao vivo, mas por meio de caixas de som. Ainda sim, era seu canto, sua voz que ecoava pelo ar acompanhado de uma melodia serena, pura e intensa. Ao som da música, um coração palpitando com calma, sentindo, a cada pulsar, a vida, o sangue correndo. O tímpano vibrando, fazendo acordes transformarem-se em pensamentos, dando à audição e à imaginação uma forma só: indefinível, mas perfeita. Aos poucos, o tato em suas primeiras sensações - um recém nascido a descobrir a textura de tudo ao seu redor, sentindo a friagem do vento que bate em sua pele. A pele que treme, o pulmão que se enche... a vida que existe. E, então, surgem as flores: as que não existem, mas preenchem as narinas com o seu perfume e deslumbram os olhos com suas cores. E quando o corpo ganha tal leveza diante das sensações, a canção o envolve em um abraço reconfortante. Um momento infindável. Ah, a música!
E, se a vida tímida, ainda flor pequena que desabrocha em meio ao solo árido, renova-se e reencontra o ser inerte, é porque um dia houve um riso, houve, enfim, uma felicidade. E, se não fosse dia, perder-me-ia admirando a lua, para encontrar aqueles que amo longe dos efeitos do tempo, nas condições sublimes em que a música se pronuncia e para a qual nos transporta. Então, sem que houvesse som ao meu redor, sei que ouviria Caetano cantando dentro de mim, pois foi sobre a lua que um dia tu também pousaras os olhos.
Realmente me fez viajar devagar. Me fez sentir o cheiro, o som, a palavra. Num pulso de uma música calma e intensa. Como escreves bem, nina! De repente, já não estava eu aqui, estava flutuando. Estranho porque suas palavras causaram uma sensação diferente...mas o que posso dizer é que ela está permeiando minha pobre caixa toráxica, que de uns tempos para cá, vem sofrendo grandes agitações! E não, não é felicidade. Acho que é calma, serenidade. Isso! Olha só, essa é uma rara vez em que pude dizer o que sinto exatamente. E com uma palavra só! Serenidade. Calma. Foi uma onda, de certo. Me relaxou, e depois de me acalmar, foi me levando, as sensações. Subindo, descendo. E a brisa massageando meu rosto. Muito bonito.
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