Por um instante, vi uma luz forte surgir no horizonte. Ela preencheu os espaços tomados pelas sombras e ofuscou-me a vista. Leite. Foi no que consegui pensar diante do clarão e o que me fez esquecer, durante uma fração de segundo, o gosto do sangue em minha boca e o peso do corpo de Mat a pressionar minha garganta com o pé. Matheus Zanir, um cara engraçado, quando não está por aí roubando a capacidade de respirar de alguém com ma botina pesada.
Passado o alívio inebriante, sua versão não cavalheiresca voltou à tona no momento em que a curta sensação de liberdade esvaiu-se e um som ruidoso e grave invadiu meus ouvidos. A luz acolhedora não fora criada com esse objetivo, era, na verdade, um farol. Um caminhão havia chegado. Quando ele desligou os faróis e o motor, o ambiente ao meu redor foi tomado novamente por vultos. Via tão pouco quanto respirava, meus pulmões lutando para inspirar uma parcela ínfima do ar, que não era capaz de me dar alívio, mas entrava rasgando minha traquéia. Apesar disso, fiquei feliz por o motorista não ter passado com o pneu sobre minha cabeça. Minha morte certamente não seria o acontecimento do ano, mas poderia render uma comemoração... singela, é claro, perto do que viria. Algo incomensurável se aproximava, eu tendo o meu corpo inteiro e em perfeita movimentação ou não. Era a única certeza que eu tinha naquele momento. Apesar do curto tempo apaziguador gerado por aquele veículo, sabia que ele não trazia bons presságios.
Há alguns meses, se eu encarasse colocar o lixo para fora como uma tarefa importante e de necessidade imediata de conclusão, possivelmente não estaria caído no chão naquele momento, e meu sofá estaria potencialmente mais quente do que então se encontrava. O problema estava todo no lixo.
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ResponderExcluirVolta para mim, minha amiga.
ResponderExcluirñ posso mais conviver com o remorso