Naqueles dias secos do alto verão faltava-me o ar. A respiração era fraca e ruidosa, mas nunca senti tanta dificuldade para preencher meus pulmões como quando vi o homem à minha frente sentado no chão, a cabeça baixa, os braços sangrando, uma canção descontínua e pouco sonora se pronunciando através de seus lábios. Arthur não ergueu os olhos para me fitar, e tampouco eu o queria. A dor que eu sentia seria inevitavelmente maior se seus olhos me revelassem sua alma ferida. Assim transcorreram longos minutos, até que consegui - exigido muito esforço – mover-me em sua direção, agachando na sua frente e dando-lhe um abraço apertado. Mantinha-o tão preso entre meus braços, que me pergunto, hoje, se não o teria machucado. A verdade é que, se o fiz, ele sequer demonstrou. Seus únicos atos foram interromper a cantiga e iniciar uma tremedeira sem igual que percorria todo o seu corpo, tendo se originado, como acredito, do seu âmago. Estavam, enfim, exteriorizados todos os seus sentimentos, e eu absorvi cada um sem que, para isso, precisasse olhar o seu rosto. Os machucados tinham sido auto-infligidos, talvez com uma faca o com as próprias unhas. Aquilo não era novo, mas foi a primeira vez que senti aquelas feridas queimarem-me com o calor do sangue que tingia as costas da minha blusa. Daquele abraço, qualquer sentimento de felicidade que eu pudesse sentir nos próximos dias foi carbonizado.
Fui capaz de soltá-lo apenas quando meus braços começaram a doer e meu rosto já ardia com o sal das minhas lágrimas. Coloquei-me de pé e o ergui. Ele não me encarava, mas parecia que também havia chorado. Seu silêncio era tão constante que até seu choro era calado. Fiquei sem ação por algum tempo, não sabia ao certo se deveria dizer algo ou apenas conduzi-lo para sua casa, tirá-lo da escuridão da estreita viela deserta de chão de paralelepípedos. Aqueles instantes de hesitação originaram uma situação incomodamente constrangedora e dolorosa. Todavia, ele rompeu com qualquer embaraço que nos rodeava: com sua voz rouca, voltou a cantarolar as mesmas frases indecifráveis de quando ainda estava sentado. Em um lampejo de esclarecimento, percebi que ele não era mais o mesmo. O homem que tanto me apoiara, que tanto me fizera rir e tanto me ensinou agora era só um garotinho indefeso escondido em um corpo grande, mas que temia o mundo e as pessoas, refugiando-se das mazelas em um mundo à parte, nos labirintos de sua mente. Meu herói estava doente.
Do fundo do meu coração: Invejei.
ResponderExcluirEu não sei, o seu texto tem cores, tem tons. As palavras têm som, têm sentimentos, quase falam. Elas passam pela minha mente, uma por uma, formando um filme. E é tão simples de imaginar.
Um texto simplesmente fantástico, Cá.
Tocante ao extremo, forte. Adorei.
(De verdade, não sei se dom é a palavra certa, porque as vezes parece que ela tira a beleza do ato, mas é, sem dúvidas, um talento. Uma habilidade maravilhosa. Simplesmente maravilhosa.)
Kmi, quanto tempo não venho pra cá.
ResponderExcluirLembrei esses dias desse blog. Mas posso dizer, com toda convicção, que seus textos continuam lindos, apesar de às vezes tristes.
Felizmente, você é uma pessoa que consegue tirar da tristeza a arte!!
Meu Deus, Cá! Já fazia um bom tempo que não entrava para ver seus textos e agora que os vi fiquei realmente perplexa. Você não perdeu o jeito de exteriorizar emoções, de me fazer imaginar a cena, sentir na pele, correr no sangue. Cada palavra é tão forte quanto se estivesse sendo escrita na minha própria pele.
ResponderExcluirO texto é realmente fantástico!
Parabéns!