Alimento-me de sonhos diariamente. Hoje, desejei alguém em quem dar um abraço desesperado de medo e de carinho, misturado com algumas lágrimas e com as palavras: "eu preciso de você, não se vá". Engraçado, não havia ninguém. Partiram antes que eu pudesse pedir para que ficassem...
"No cair da tarde, o menino tem as calças encostadas no chão. Sua pele expõe machucados; suas roupas, buracos; mas sua cabeça está distante de tudo o que o seu tato pode perceber. Sente apenas aquilo que seus olhos veem e o que sua mente lhe mostra. Está sentado ao lado de um cão, seu amigo das ruas. Ambos observam uma dezena de frangos girarem continuamente em longos espetos, envolvidos por um calor que contrasta veementemente com a friagem do vento que bate em suas costas. Nenhum dos dois parece se importar com isso. O cão tem fome, o menino tem dúvidas. O fato de haver comida disponível, mas os que têm fome não terem acesso a ela o intriga e sua ânsia é de questionar as pessoas sobre tais motivos. Todavia, é um menino rude. Ele não pode se dirigir aos outros como um igual com suas perguntas infantis, ao menos foi isso que o tempo e os homens engravatados o ensinaram. O ensinaram, sobretudo, a ser ninguém. É um menino sem nome ou rosto, tem as mãos pretas como qualquer outro, um cachorro como qualquer outro, dorme ao relento e come das migalhas como qualquer outro. Ninguém o vê em uma avenida movimenta ou lhe oferece agasalhos em dia de chuva: ele é só mais um membro da paisagem urbana. É tão comum, que os outros já se acostumaram a ele, e ele já se acostumou aos outros. Trata-se de um mundo à parte, mas o menino não se importa. Nesse momento, ele só sente pena do cachorro ao seu lado, pois sabe que ele nunca vai se acostumar à sensação de fome que o persegue, como ele já se acostumou. Aos poucos, a noite vem serena, e o frangos continuam seus giros incessantes, como que tentassem buscar a liberdade em um voo sem o bater das asas."
... Mais engraçado é ver que os sorrisos transformaram-se em socos. São vários e inesperados.
Em meio a isso, salvam-se as palavras de um biscoito: "quando a coceira é dentro da bota, coçar o lado de fora não alivia muito".
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