sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Voo fixo

Alimento-me de sonhos diariamente. Hoje, desejei alguém em quem dar um abraço desesperado de medo e de carinho, misturado com algumas lágrimas e com as palavras: "eu preciso de você, não se vá". Engraçado, não havia ninguém. Partiram antes que eu pudesse pedir para que ficassem...



"No cair da tarde, o menino tem as calças encostadas no chão. Sua pele expõe machucados; suas roupas, buracos; mas sua cabeça está distante de tudo o que o seu tato pode perceber. Sente apenas aquilo que seus olhos veem e o que sua mente lhe mostra. Está sentado ao lado de um cão, seu amigo das ruas. Ambos observam uma dezena de frangos girarem continuamente em longos espetos, envolvidos por um calor que contrasta veementemente com a friagem do vento que bate em suas costas. Nenhum dos dois parece se importar com isso. O cão tem fome, o menino tem dúvidas. O fato de haver comida disponível, mas os que têm fome não terem acesso a ela o intriga e sua ânsia é de questionar as pessoas sobre tais motivos. Todavia, é um menino rude. Ele não pode se dirigir aos outros como um igual com suas perguntas infantis, ao menos foi isso que o tempo e os homens engravatados o ensinaram. O ensinaram, sobretudo, a ser ninguém. É um menino sem nome ou rosto, tem as mãos pretas como qualquer outro, um cachorro como qualquer outro, dorme ao relento e come das migalhas como qualquer outro. Ninguém o vê em uma avenida movimenta ou lhe oferece agasalhos em dia de chuva: ele é só mais um membro da paisagem urbana. É tão comum, que os outros já se acostumaram a ele, e ele já se acostumou aos outros. Trata-se de um mundo à parte, mas o menino não se importa. Nesse momento, ele só sente pena do cachorro ao seu lado, pois sabe que ele nunca vai se acostumar à sensação de fome que o persegue, como ele já se acostumou. Aos poucos, a noite vem serena, e o frangos continuam seus giros incessantes, como que tentassem buscar a liberdade em um voo sem o bater das asas."



... Mais engraçado é ver que os sorrisos transformaram-se em socos. São vários e inesperados.

Em meio a isso, salvam-se as palavras de um biscoito: "quando a coceira é dentro da bota, coçar o lado de fora não alivia muito".

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

À utopia

Espaço Alfa, 7 de outubro de 2010


Meu menino,

Anseio por saber notícias suas. A chuva tem trazido e levado tantas coisas, que certamente já trouxe seu riso e sua preocupação junto de seus ventos, sem que, contudo, eu notasse. Coisas que passaram e que não deixaram o que deveria ficar. Tristes ventos que não param para que eu possa apanhar os sonhos sem asa perdidos no meio do caminho para dar-lhes um rumo!
Ah, meu menino, mas tenho tanta coisa para lhe contar! Vi uma estrela de brilho raro em tempos de chuva. Sua luz era tão intensa que por segundos ofuscou-me a vista: segundos de cegueira branca. Recobrado o sentido, percebi que ela não mais estava ali. Foi iluminar outras relvas e outras almas, deixando-me tão despreparada, sem aviso. É certo que isso não é novo, mas sua luminosidade era tão confortável, que por tempos não consegui aceitar seu adeus. Adeus este que nunca foi dado. Como bem me conhece, já sabe que meu inconformismo anda me perseguindo por conta disso, embora, atualmente, saiba lidar melhor com ele. Trocamos até segredos, por vezes! Falei sobre o medo que porto, para depois ouvir longa e eloquentemente sobre a esperança. E assim seguem os dias, entre calmaria e desassossegos.
Dessa vez pouparei exageros, limitando-me apenas a dizer que sinto saudade. Saudade das conversas despreocupadas, dos abraços reconfortantes, do tempo que passava sem passar, da felicidade aqui e acolá. Saudade dos brilhos que se apagaram. Saudade dos sorrisos perdidos. Saudade das cartas que nunca recebi.


Com carinho, C*

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Triste calar

Abra os braços, meu amigo.
Não enumere seus sonhos, apenas cante-os e viva-os.
Não derrame lágrimas na solidão, mas aperte-me contra seu peito quando sentir angústia.
Não permita que a canção se cale por ser rude, mas nunca deixem cantá-la se não for sincera.
Diga aos amigos e parentes que sinto saudades.
Diga à vida, que passa, que jamais ganharia dela em uma brincadeira de pega-pega.
E os ligeiros segundos em que mantivemos os olhos de um nos olhos do outro foram maiores do que todas as horas em que olhei ao redor.

Tudo porque hoje eu desisto, enfim.

sábado, 2 de outubro de 2010

Conturbação

Explode. Fragmentos no ar, desordem da atmosfera, caos. Explosão de liberdade, expansão extrema, quebra dos limites corporais. O bumbar do coração, o esboroamento dos pulmões, ossos não mais ligados, pele desfeita. Dilatação, fim da pressão que esmaga: a liberdade de correr sem rumo ou de se arremessar contra a parede... ou o vidro. Explosão que não acontece, contida pela matéria. Alta pressão sem solução, sem alívio. Compressão, então. Dor... sim, muita dor. E, agora, apenas olhos cansados.

Não quero mais sentir isso.