Por um instante, vi uma luz forte surgir no horizonte. Ela preencheu os espaços tomados pelas sombras e ofuscou-me a vista. Leite. Foi no que consegui pensar diante do clarão e o que me fez esquecer, durante uma fração de segundo, o gosto do sangue em minha boca e o peso do corpo de Mat a pressionar minha garganta com o pé. Matheus Zanir, um cara engraçado, quando não está por aí roubando a capacidade de respirar de alguém com ma botina pesada.
Passado o alívio inebriante, sua versão não cavalheiresca voltou à tona no momento em que a curta sensação de liberdade esvaiu-se e um som ruidoso e grave invadiu meus ouvidos. A luz acolhedora não fora criada com esse objetivo, era, na verdade, um farol. Um caminhão havia chegado. Quando ele desligou os faróis e o motor, o ambiente ao meu redor foi tomado novamente por vultos. Via tão pouco quanto respirava, meus pulmões lutando para inspirar uma parcela ínfima do ar, que não era capaz de me dar alívio, mas entrava rasgando minha traquéia. Apesar disso, fiquei feliz por o motorista não ter passado com o pneu sobre minha cabeça. Minha morte certamente não seria o acontecimento do ano, mas poderia render uma comemoração... singela, é claro, perto do que viria. Algo incomensurável se aproximava, eu tendo o meu corpo inteiro e em perfeita movimentação ou não. Era a única certeza que eu tinha naquele momento. Apesar do curto tempo apaziguador gerado por aquele veículo, sabia que ele não trazia bons presságios.
Há alguns meses, se eu encarasse colocar o lixo para fora como uma tarefa importante e de necessidade imediata de conclusão, possivelmente não estaria caído no chão naquele momento, e meu sofá estaria potencialmente mais quente do que então se encontrava. O problema estava todo no lixo.
Vírgula
sábado, 15 de outubro de 2011
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Camargando
Cansado da caça, Camargo caminha. Certeiro, cismado, coveiro culpado. Com capital corrompido, Camargo, consigo, contou com cautela: "cavar cada cova custa centavo, ceifador comprado, cobraria cruzado". Carma colhido, com cada corpo caído Camargo chorou. Contudo comprou carências contidas: cama, cadeira, comida.
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
Diário de memórias
Naqueles dias secos do alto verão faltava-me o ar. A respiração era fraca e ruidosa, mas nunca senti tanta dificuldade para preencher meus pulmões como quando vi o homem à minha frente sentado no chão, a cabeça baixa, os braços sangrando, uma canção descontínua e pouco sonora se pronunciando através de seus lábios. Arthur não ergueu os olhos para me fitar, e tampouco eu o queria. A dor que eu sentia seria inevitavelmente maior se seus olhos me revelassem sua alma ferida. Assim transcorreram longos minutos, até que consegui - exigido muito esforço – mover-me em sua direção, agachando na sua frente e dando-lhe um abraço apertado. Mantinha-o tão preso entre meus braços, que me pergunto, hoje, se não o teria machucado. A verdade é que, se o fiz, ele sequer demonstrou. Seus únicos atos foram interromper a cantiga e iniciar uma tremedeira sem igual que percorria todo o seu corpo, tendo se originado, como acredito, do seu âmago. Estavam, enfim, exteriorizados todos os seus sentimentos, e eu absorvi cada um sem que, para isso, precisasse olhar o seu rosto. Os machucados tinham sido auto-infligidos, talvez com uma faca o com as próprias unhas. Aquilo não era novo, mas foi a primeira vez que senti aquelas feridas queimarem-me com o calor do sangue que tingia as costas da minha blusa. Daquele abraço, qualquer sentimento de felicidade que eu pudesse sentir nos próximos dias foi carbonizado.
Fui capaz de soltá-lo apenas quando meus braços começaram a doer e meu rosto já ardia com o sal das minhas lágrimas. Coloquei-me de pé e o ergui. Ele não me encarava, mas parecia que também havia chorado. Seu silêncio era tão constante que até seu choro era calado. Fiquei sem ação por algum tempo, não sabia ao certo se deveria dizer algo ou apenas conduzi-lo para sua casa, tirá-lo da escuridão da estreita viela deserta de chão de paralelepípedos. Aqueles instantes de hesitação originaram uma situação incomodamente constrangedora e dolorosa. Todavia, ele rompeu com qualquer embaraço que nos rodeava: com sua voz rouca, voltou a cantarolar as mesmas frases indecifráveis de quando ainda estava sentado. Em um lampejo de esclarecimento, percebi que ele não era mais o mesmo. O homem que tanto me apoiara, que tanto me fizera rir e tanto me ensinou agora era só um garotinho indefeso escondido em um corpo grande, mas que temia o mundo e as pessoas, refugiando-se das mazelas em um mundo à parte, nos labirintos de sua mente. Meu herói estava doente.
Fui capaz de soltá-lo apenas quando meus braços começaram a doer e meu rosto já ardia com o sal das minhas lágrimas. Coloquei-me de pé e o ergui. Ele não me encarava, mas parecia que também havia chorado. Seu silêncio era tão constante que até seu choro era calado. Fiquei sem ação por algum tempo, não sabia ao certo se deveria dizer algo ou apenas conduzi-lo para sua casa, tirá-lo da escuridão da estreita viela deserta de chão de paralelepípedos. Aqueles instantes de hesitação originaram uma situação incomodamente constrangedora e dolorosa. Todavia, ele rompeu com qualquer embaraço que nos rodeava: com sua voz rouca, voltou a cantarolar as mesmas frases indecifráveis de quando ainda estava sentado. Em um lampejo de esclarecimento, percebi que ele não era mais o mesmo. O homem que tanto me apoiara, que tanto me fizera rir e tanto me ensinou agora era só um garotinho indefeso escondido em um corpo grande, mas que temia o mundo e as pessoas, refugiando-se das mazelas em um mundo à parte, nos labirintos de sua mente. Meu herói estava doente.
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Voo fixo
Alimento-me de sonhos diariamente. Hoje, desejei alguém em quem dar um abraço desesperado de medo e de carinho, misturado com algumas lágrimas e com as palavras: "eu preciso de você, não se vá". Engraçado, não havia ninguém. Partiram antes que eu pudesse pedir para que ficassem...
"No cair da tarde, o menino tem as calças encostadas no chão. Sua pele expõe machucados; suas roupas, buracos; mas sua cabeça está distante de tudo o que o seu tato pode perceber. Sente apenas aquilo que seus olhos veem e o que sua mente lhe mostra. Está sentado ao lado de um cão, seu amigo das ruas. Ambos observam uma dezena de frangos girarem continuamente em longos espetos, envolvidos por um calor que contrasta veementemente com a friagem do vento que bate em suas costas. Nenhum dos dois parece se importar com isso. O cão tem fome, o menino tem dúvidas. O fato de haver comida disponível, mas os que têm fome não terem acesso a ela o intriga e sua ânsia é de questionar as pessoas sobre tais motivos. Todavia, é um menino rude. Ele não pode se dirigir aos outros como um igual com suas perguntas infantis, ao menos foi isso que o tempo e os homens engravatados o ensinaram. O ensinaram, sobretudo, a ser ninguém. É um menino sem nome ou rosto, tem as mãos pretas como qualquer outro, um cachorro como qualquer outro, dorme ao relento e come das migalhas como qualquer outro. Ninguém o vê em uma avenida movimenta ou lhe oferece agasalhos em dia de chuva: ele é só mais um membro da paisagem urbana. É tão comum, que os outros já se acostumaram a ele, e ele já se acostumou aos outros. Trata-se de um mundo à parte, mas o menino não se importa. Nesse momento, ele só sente pena do cachorro ao seu lado, pois sabe que ele nunca vai se acostumar à sensação de fome que o persegue, como ele já se acostumou. Aos poucos, a noite vem serena, e o frangos continuam seus giros incessantes, como que tentassem buscar a liberdade em um voo sem o bater das asas."
... Mais engraçado é ver que os sorrisos transformaram-se em socos. São vários e inesperados.
Em meio a isso, salvam-se as palavras de um biscoito: "quando a coceira é dentro da bota, coçar o lado de fora não alivia muito".
"No cair da tarde, o menino tem as calças encostadas no chão. Sua pele expõe machucados; suas roupas, buracos; mas sua cabeça está distante de tudo o que o seu tato pode perceber. Sente apenas aquilo que seus olhos veem e o que sua mente lhe mostra. Está sentado ao lado de um cão, seu amigo das ruas. Ambos observam uma dezena de frangos girarem continuamente em longos espetos, envolvidos por um calor que contrasta veementemente com a friagem do vento que bate em suas costas. Nenhum dos dois parece se importar com isso. O cão tem fome, o menino tem dúvidas. O fato de haver comida disponível, mas os que têm fome não terem acesso a ela o intriga e sua ânsia é de questionar as pessoas sobre tais motivos. Todavia, é um menino rude. Ele não pode se dirigir aos outros como um igual com suas perguntas infantis, ao menos foi isso que o tempo e os homens engravatados o ensinaram. O ensinaram, sobretudo, a ser ninguém. É um menino sem nome ou rosto, tem as mãos pretas como qualquer outro, um cachorro como qualquer outro, dorme ao relento e come das migalhas como qualquer outro. Ninguém o vê em uma avenida movimenta ou lhe oferece agasalhos em dia de chuva: ele é só mais um membro da paisagem urbana. É tão comum, que os outros já se acostumaram a ele, e ele já se acostumou aos outros. Trata-se de um mundo à parte, mas o menino não se importa. Nesse momento, ele só sente pena do cachorro ao seu lado, pois sabe que ele nunca vai se acostumar à sensação de fome que o persegue, como ele já se acostumou. Aos poucos, a noite vem serena, e o frangos continuam seus giros incessantes, como que tentassem buscar a liberdade em um voo sem o bater das asas."
... Mais engraçado é ver que os sorrisos transformaram-se em socos. São vários e inesperados.
Em meio a isso, salvam-se as palavras de um biscoito: "quando a coceira é dentro da bota, coçar o lado de fora não alivia muito".
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
À utopia
Espaço Alfa, 7 de outubro de 2010
Meu menino,
Anseio por saber notícias suas. A chuva tem trazido e levado tantas coisas, que certamente já trouxe seu riso e sua preocupação junto de seus ventos, sem que, contudo, eu notasse. Coisas que passaram e que não deixaram o que deveria ficar. Tristes ventos que não param para que eu possa apanhar os sonhos sem asa perdidos no meio do caminho para dar-lhes um rumo!
Ah, meu menino, mas tenho tanta coisa para lhe contar! Vi uma estrela de brilho raro em tempos de chuva. Sua luz era tão intensa que por segundos ofuscou-me a vista: segundos de cegueira branca. Recobrado o sentido, percebi que ela não mais estava ali. Foi iluminar outras relvas e outras almas, deixando-me tão despreparada, sem aviso. É certo que isso não é novo, mas sua luminosidade era tão confortável, que por tempos não consegui aceitar seu adeus. Adeus este que nunca foi dado. Como bem me conhece, já sabe que meu inconformismo anda me perseguindo por conta disso, embora, atualmente, saiba lidar melhor com ele. Trocamos até segredos, por vezes! Falei sobre o medo que porto, para depois ouvir longa e eloquentemente sobre a esperança. E assim seguem os dias, entre calmaria e desassossegos.
Dessa vez pouparei exageros, limitando-me apenas a dizer que sinto saudade. Saudade das conversas despreocupadas, dos abraços reconfortantes, do tempo que passava sem passar, da felicidade aqui e acolá. Saudade dos brilhos que se apagaram. Saudade dos sorrisos perdidos. Saudade das cartas que nunca recebi.
Com carinho, C*
Meu menino,
Anseio por saber notícias suas. A chuva tem trazido e levado tantas coisas, que certamente já trouxe seu riso e sua preocupação junto de seus ventos, sem que, contudo, eu notasse. Coisas que passaram e que não deixaram o que deveria ficar. Tristes ventos que não param para que eu possa apanhar os sonhos sem asa perdidos no meio do caminho para dar-lhes um rumo!
Ah, meu menino, mas tenho tanta coisa para lhe contar! Vi uma estrela de brilho raro em tempos de chuva. Sua luz era tão intensa que por segundos ofuscou-me a vista: segundos de cegueira branca. Recobrado o sentido, percebi que ela não mais estava ali. Foi iluminar outras relvas e outras almas, deixando-me tão despreparada, sem aviso. É certo que isso não é novo, mas sua luminosidade era tão confortável, que por tempos não consegui aceitar seu adeus. Adeus este que nunca foi dado. Como bem me conhece, já sabe que meu inconformismo anda me perseguindo por conta disso, embora, atualmente, saiba lidar melhor com ele. Trocamos até segredos, por vezes! Falei sobre o medo que porto, para depois ouvir longa e eloquentemente sobre a esperança. E assim seguem os dias, entre calmaria e desassossegos.
Dessa vez pouparei exageros, limitando-me apenas a dizer que sinto saudade. Saudade das conversas despreocupadas, dos abraços reconfortantes, do tempo que passava sem passar, da felicidade aqui e acolá. Saudade dos brilhos que se apagaram. Saudade dos sorrisos perdidos. Saudade das cartas que nunca recebi.
Com carinho, C*
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
Triste calar
Abra os braços, meu amigo.
Não enumere seus sonhos, apenas cante-os e viva-os.
Não derrame lágrimas na solidão, mas aperte-me contra seu peito quando sentir angústia.
Não permita que a canção se cale por ser rude, mas nunca deixem cantá-la se não for sincera.
Diga aos amigos e parentes que sinto saudades.
Diga à vida, que passa, que jamais ganharia dela em uma brincadeira de pega-pega.
E os ligeiros segundos em que mantivemos os olhos de um nos olhos do outro foram maiores do que todas as horas em que olhei ao redor.
Tudo porque hoje eu desisto, enfim.
Não enumere seus sonhos, apenas cante-os e viva-os.
Não derrame lágrimas na solidão, mas aperte-me contra seu peito quando sentir angústia.
Não permita que a canção se cale por ser rude, mas nunca deixem cantá-la se não for sincera.
Diga aos amigos e parentes que sinto saudades.
Diga à vida, que passa, que jamais ganharia dela em uma brincadeira de pega-pega.
E os ligeiros segundos em que mantivemos os olhos de um nos olhos do outro foram maiores do que todas as horas em que olhei ao redor.
Tudo porque hoje eu desisto, enfim.
sábado, 2 de outubro de 2010
Conturbação
Explode. Fragmentos no ar, desordem da atmosfera, caos. Explosão de liberdade, expansão extrema, quebra dos limites corporais. O bumbar do coração, o esboroamento dos pulmões, ossos não mais ligados, pele desfeita. Dilatação, fim da pressão que esmaga: a liberdade de correr sem rumo ou de se arremessar contra a parede... ou o vidro. Explosão que não acontece, contida pela matéria. Alta pressão sem solução, sem alívio. Compressão, então. Dor... sim, muita dor. E, agora, apenas olhos cansados.
Não quero mais sentir isso.
Não quero mais sentir isso.
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