quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Camargando

Cansado da caça, Camargo caminha. Certeiro, cismado, coveiro culpado. Com capital corrompido, Camargo, consigo, contou com cautela: "cavar cada cova custa centavo, ceifador comprado, cobraria cruzado". Carma colhido, com cada corpo caído Camargo chorou. Contudo comprou carências contidas: cama, cadeira, comida.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Diário de memórias

Naqueles dias secos do alto verão faltava-me o ar. A respiração era fraca e ruidosa, mas nunca senti tanta dificuldade para preencher meus pulmões como quando vi o homem à minha frente sentado no chão, a cabeça baixa, os braços sangrando, uma canção descontínua e pouco sonora se pronunciando através de seus lábios. Arthur não ergueu os olhos para me fitar, e tampouco eu o queria. A dor que eu sentia seria inevitavelmente maior se seus olhos me revelassem sua alma ferida. Assim transcorreram longos minutos, até que consegui - exigido muito esforço – mover-me em sua direção, agachando na sua frente e dando-lhe um abraço apertado. Mantinha-o tão preso entre meus braços, que me pergunto, hoje, se não o teria machucado. A verdade é que, se o fiz, ele sequer demonstrou. Seus únicos atos foram interromper a cantiga e iniciar uma tremedeira sem igual que percorria todo o seu corpo, tendo se originado, como acredito, do seu âmago. Estavam, enfim, exteriorizados todos os seus sentimentos, e eu absorvi cada um sem que, para isso, precisasse olhar o seu rosto. Os machucados tinham sido auto-infligidos, talvez com uma faca o com as próprias unhas. Aquilo não era novo, mas foi a primeira vez que senti aquelas feridas queimarem-me com o calor do sangue que tingia as costas da minha blusa. Daquele abraço, qualquer sentimento de felicidade que eu pudesse sentir nos próximos dias foi carbonizado.
Fui capaz de soltá-lo apenas quando meus braços começaram a doer e meu rosto já ardia com o sal das minhas lágrimas. Coloquei-me de pé e o ergui. Ele não me encarava, mas parecia que também havia chorado. Seu silêncio era tão constante que até seu choro era calado. Fiquei sem ação por algum tempo, não sabia ao certo se deveria dizer algo ou apenas conduzi-lo para sua casa, tirá-lo da escuridão da estreita viela deserta de chão de paralelepípedos. Aqueles instantes de hesitação originaram uma situação incomodamente constrangedora e dolorosa. Todavia, ele rompeu com qualquer embaraço que nos rodeava: com sua voz rouca, voltou a cantarolar as mesmas frases indecifráveis de quando ainda estava sentado. Em um lampejo de esclarecimento, percebi que ele não era mais o mesmo. O homem que tanto me apoiara, que tanto me fizera rir e tanto me ensinou agora era só um garotinho indefeso escondido em um corpo grande, mas que temia o mundo e as pessoas, refugiando-se das mazelas em um mundo à parte, nos labirintos de sua mente. Meu herói estava doente.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Voo fixo

Alimento-me de sonhos diariamente. Hoje, desejei alguém em quem dar um abraço desesperado de medo e de carinho, misturado com algumas lágrimas e com as palavras: "eu preciso de você, não se vá". Engraçado, não havia ninguém. Partiram antes que eu pudesse pedir para que ficassem...



"No cair da tarde, o menino tem as calças encostadas no chão. Sua pele expõe machucados; suas roupas, buracos; mas sua cabeça está distante de tudo o que o seu tato pode perceber. Sente apenas aquilo que seus olhos veem e o que sua mente lhe mostra. Está sentado ao lado de um cão, seu amigo das ruas. Ambos observam uma dezena de frangos girarem continuamente em longos espetos, envolvidos por um calor que contrasta veementemente com a friagem do vento que bate em suas costas. Nenhum dos dois parece se importar com isso. O cão tem fome, o menino tem dúvidas. O fato de haver comida disponível, mas os que têm fome não terem acesso a ela o intriga e sua ânsia é de questionar as pessoas sobre tais motivos. Todavia, é um menino rude. Ele não pode se dirigir aos outros como um igual com suas perguntas infantis, ao menos foi isso que o tempo e os homens engravatados o ensinaram. O ensinaram, sobretudo, a ser ninguém. É um menino sem nome ou rosto, tem as mãos pretas como qualquer outro, um cachorro como qualquer outro, dorme ao relento e come das migalhas como qualquer outro. Ninguém o vê em uma avenida movimenta ou lhe oferece agasalhos em dia de chuva: ele é só mais um membro da paisagem urbana. É tão comum, que os outros já se acostumaram a ele, e ele já se acostumou aos outros. Trata-se de um mundo à parte, mas o menino não se importa. Nesse momento, ele só sente pena do cachorro ao seu lado, pois sabe que ele nunca vai se acostumar à sensação de fome que o persegue, como ele já se acostumou. Aos poucos, a noite vem serena, e o frangos continuam seus giros incessantes, como que tentassem buscar a liberdade em um voo sem o bater das asas."



... Mais engraçado é ver que os sorrisos transformaram-se em socos. São vários e inesperados.

Em meio a isso, salvam-se as palavras de um biscoito: "quando a coceira é dentro da bota, coçar o lado de fora não alivia muito".

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

À utopia

Espaço Alfa, 7 de outubro de 2010


Meu menino,

Anseio por saber notícias suas. A chuva tem trazido e levado tantas coisas, que certamente já trouxe seu riso e sua preocupação junto de seus ventos, sem que, contudo, eu notasse. Coisas que passaram e que não deixaram o que deveria ficar. Tristes ventos que não param para que eu possa apanhar os sonhos sem asa perdidos no meio do caminho para dar-lhes um rumo!
Ah, meu menino, mas tenho tanta coisa para lhe contar! Vi uma estrela de brilho raro em tempos de chuva. Sua luz era tão intensa que por segundos ofuscou-me a vista: segundos de cegueira branca. Recobrado o sentido, percebi que ela não mais estava ali. Foi iluminar outras relvas e outras almas, deixando-me tão despreparada, sem aviso. É certo que isso não é novo, mas sua luminosidade era tão confortável, que por tempos não consegui aceitar seu adeus. Adeus este que nunca foi dado. Como bem me conhece, já sabe que meu inconformismo anda me perseguindo por conta disso, embora, atualmente, saiba lidar melhor com ele. Trocamos até segredos, por vezes! Falei sobre o medo que porto, para depois ouvir longa e eloquentemente sobre a esperança. E assim seguem os dias, entre calmaria e desassossegos.
Dessa vez pouparei exageros, limitando-me apenas a dizer que sinto saudade. Saudade das conversas despreocupadas, dos abraços reconfortantes, do tempo que passava sem passar, da felicidade aqui e acolá. Saudade dos brilhos que se apagaram. Saudade dos sorrisos perdidos. Saudade das cartas que nunca recebi.


Com carinho, C*

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Triste calar

Abra os braços, meu amigo.
Não enumere seus sonhos, apenas cante-os e viva-os.
Não derrame lágrimas na solidão, mas aperte-me contra seu peito quando sentir angústia.
Não permita que a canção se cale por ser rude, mas nunca deixem cantá-la se não for sincera.
Diga aos amigos e parentes que sinto saudades.
Diga à vida, que passa, que jamais ganharia dela em uma brincadeira de pega-pega.
E os ligeiros segundos em que mantivemos os olhos de um nos olhos do outro foram maiores do que todas as horas em que olhei ao redor.

Tudo porque hoje eu desisto, enfim.

sábado, 2 de outubro de 2010

Conturbação

Explode. Fragmentos no ar, desordem da atmosfera, caos. Explosão de liberdade, expansão extrema, quebra dos limites corporais. O bumbar do coração, o esboroamento dos pulmões, ossos não mais ligados, pele desfeita. Dilatação, fim da pressão que esmaga: a liberdade de correr sem rumo ou de se arremessar contra a parede... ou o vidro. Explosão que não acontece, contida pela matéria. Alta pressão sem solução, sem alívio. Compressão, então. Dor... sim, muita dor. E, agora, apenas olhos cansados.

Não quero mais sentir isso.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Sobras amargas

Ledo engano da felicidade, luta voraz contra a fugacidade. Contaria ao mar os segredos guardados, para que ele os afogasse em suas ondas, calando todo um passado que teima em falar ao pé do ouvido. No entanto, as águas salgadas ocupam-se com seu ir e vir, sem atentar aos sentimentos humanos, tão pequenos diante da infinidade espacial. E todo um vácuo surge ao peito, sugando forças e luz, tão denso que pesa, tão áspero que fere.
Seria o cansaço do tema? Uma infinidade de decepções só faz concluir que o alvo é, na verdade, o agente. E o mundo inverte-se sob uma nova ótica! Tristeza e felicidade confundem-se: os olhos chorosos guardam, em si, sorrisos sinceros. E a conturbação inibe o nascimento de qualquer sentimento perene.

Poderia escrever indiscriminadamente, mas a verdade é que senti tristeza ao ver um homem sonhar com algo impossível, senti-me vazia ao fazer da dor de outrem a minha, senti desilusão ao deparar-me com o descaso, senti-me morta quando partiram, senti-me, enfim, infantil por tornar a acreditar.

Agora resta a imobilidade na espera de um abraço. Um longo e duradouro abraço.

domingo, 26 de setembro de 2010

Hoje, Caetano cantou

Hoje, Caetano cantou. Não ao vivo, mas por meio de caixas de som. Ainda sim, era seu canto, sua voz que ecoava pelo ar acompanhado de uma melodia serena, pura e intensa. Ao som da música, um coração palpitando com calma, sentindo, a cada pulsar, a vida, o sangue correndo. O tímpano vibrando, fazendo acordes transformarem-se em pensamentos, dando à audição e à imaginação uma forma só: indefinível, mas perfeita. Aos poucos, o tato em suas primeiras sensações - um recém nascido a descobrir a textura de tudo ao seu redor, sentindo a friagem do vento que bate em sua pele. A pele que treme, o pulmão que se enche... a vida que existe. E, então, surgem as flores: as que não existem, mas preenchem as narinas com o seu perfume e deslumbram os olhos com suas cores. E quando o corpo ganha tal leveza diante das sensações, a canção o envolve em um abraço reconfortante. Um momento infindável. Ah, a música!
E, se a vida tímida, ainda flor pequena que desabrocha em meio ao solo árido, renova-se e reencontra o ser inerte, é porque um dia houve um riso, houve, enfim, uma felicidade. E, se não fosse dia, perder-me-ia admirando a lua, para encontrar aqueles que amo longe dos efeitos do tempo, nas condições sublimes em que a música se pronuncia e para a qual nos transporta. Então, sem que houvesse som ao meu redor, sei que ouviria Caetano cantando dentro de mim, pois foi sobre a lua que um dia tu também pousaras os olhos.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Despedida

Há um texto pronto para a ocasião, mas, ao contrário dos outros dias, hoje vou preferir o silêncio.

Se algo ainda realmente importa, já foi dito. Verbalmente, eu sei: os textos carregam muito pouco de minha história dos últimos dois anos. Todavia, agora é só a brisa levando consigo uma folha seca. Calmaria.

A despedida é, sobretudo, triste, pois nenhuma partida é feliz.

Então que a folha encontre seu repouso sobre solo infértil, para fertilizá-lo, e que, ao meu corpo curvar-se em agradecimento, uma palavra sussurrada seja ouvida, pois é assim que eu digo "adeus".

sábado, 10 de julho de 2010

Bagatela

Estou fraca e cansada. Embora sinta uma necessidade absurda de me expressar, tenho dificuldade para encontrar o que dizer, as poucas palavras que consigo formar são intrincadas e pouco lógicas. Sinto um peso denso dentro de mim que se altera com um completo vazio. O ar foi sugado de mim, levando consigo grande parte da minha força. Estou fraca e já quase sem esperança...



"Havia um brilho diferente em seu olhar e eu soube, naquele instante, que ela sentia medo. Percorrêramos os quatro cantos da cidade durante as horas da madrugada e naquele momento - a poucos minutos do amanhecer - escondidos no sótão de uma casa abandonada, sentíamos o peso do fracasso. Nossos esforços não foram suficientes. Sentados no chão empoeirado, ouvíamos a chuva bater com força nas telhas sobre nossas cabeças. Antes de tudo, era uma chuva triste.
Ela, então, abriu a mão e deixou escapar por entre seus dedos um objeto metálico, que se chocou com a madeira em um tilintar agudo, porém abafado: o som da esperança. Pude ver, por meio da iluminação fraca de uma lanterna, uma chave pesada, que reluzia um brilho embaçado. Sabia do que se tratava e o que ela esperava de mim. Assenti com a cabeça, apanhando a chave. Apressado, dirigi-me à saída do sótão, procurando com os pés a escada que me levaria ao andar de baixo, apoiando-me nela desastradamente até conseguir descer. Chegando ao chão, ouvi batidas violentas na porta da frente. Haviam nos encontrado..."

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Abraço ao passado

"Há cerca de um mês, contaram-me sobre um senhor que, tendo sofrido com uma doença nas vias respiratórias (creio que um câncer), tinha grande dificuldade para falar. Na falta da expressão oral, ele levava consigo diversos papeizinhos com piadas que distribuía para as pessoas ao seu redor. 'Que graça', não? Bem... para mim, esta é uma das formas mais simples de fazer a diferença. Mesmo sem conhecê-lo, sou sua admiradora..."





Inquietude. A escuridão envolvia seu corpo, o chão recolhia a água que lhe escapava pelos olhos. Por fora, braços e pernas rígidos, mãos que seguravam com força a cabeça, um tremor periódico. Por dentro, angústia, algo praticamente palpável que buscava uma fuga, rasgando-lhe o coração, embrulhando-lhe o estômago. Era uma garota de olhos inchados e corpo encolhido. O que sentia não era capaz de dar a ela movimento, apenas de corroê-la lentamente, arranhando a sua alma e abrindo fendas na sua esperança. O dia já tinha exaurido suas forças. Estava cansada, mas a cabeça continuava a dar voltas, percorrendo os caminhos mais estreitos e desgastantes de sua memória, colocando diante dos seus olhos o que ela não queria lembrar. Contudo, lembrava. Lembrava de um sorriso e de um abraço, misturados a despedida e a pedaços quebrados de um copo. Uma corda, um beijo roubado e frases difíceis de se ouvir completavam o quadro confuso. O ar parecia se recusar a entrar em seus pulmões e ela aspirava com força. Aguardava a chegada de um dia e desejava as malas feitas: uma fuga. Enquanto isso, esperava que o caminhar das horas a adormecesse para que os relâmpagos de imagens e sons de sua mente a deixassem só, abraçada pela densidade das sombras e reconfortada pela frieza do chão. Tudo em um completo silêncio.





"...Pois a beleza está em fazer rir aqueles que não esperam pelo riso."

domingo, 27 de junho de 2010

Volta ao lar

E, mais uma vez, o regresso. Tal como um viajante, que parte para longínquos lugares e, quando a saudade se pronuncia com fervor em seu peito (talvez por desilusão ou por encontrar uma rotina pouco promissora), retorna a casa, eu volto às palavras. Trago os olhos úmidos, a cabeça borbulhando e a mala repleta de histórias.
As lágrimas surgidas da felicidade e da tristeza; o borbulhar que dificulta a transformação dos sentimentos em expressões, desfazendo a concentração; as histórias que, ensimesmadas em suas belezas e contradições, falam por si só.
Todavia, o que tenho comigo de mais valioso é um aprendizado inacabado, mais propriamente uma dúvida. O assunto é "limite".

Se da dúvida surge o medo e, deste, o caos, qual pode ser a solução? Uma resposta, afinal era a falta dela a fonte do problema. É por isso que venho, humildemente, em sua busca. Talvez a única grande questão sobre a qual me pautei nos últimos tempos, a única interrogação que foge ao "nada" pelo qual tenho me guiado - talvez não fielmente, mas esperançosamente - seja simples demais para requerer uma resposta objetiva: qual é o limite?
Limite para sonhar, limite para fazer o que deseja, limite para a sinceridade, limite para amar alguém...
Se a ponderação fosse o foco, as possíveis respostas seriam: deve-se sonhar o suficiente para desejar algo e lutar por isso, sem nunca deixar de manter os pés sobre a realidade. Deve-se fazer o que traz felicidade, sem nunca esquecer as responsabilidades e o respeito ao próximo. Deve-se ser sincero até o ponto em que a sinceridade não ofenda, nem magoe alguém ou, ainda, permita a alguém o magoar. Deve-se amar alguém como ama a si mesmo, com respeito, suavidade e nunca com uma intensidade capaz de ferir alguém, você ou quem se ama.
Certas ou erradas, são respostas. Entretanto... onde se encontra a magia em meio a tantas restrições? Se a vida é única, então por que não fazê-la intensa? Sempre com respeito e consciência, por que não sonhar infinitamente? Não vestir as asas da imaginação e voar livremente? Por que não fazer o que se quer, abandonando algumas responsabilidades para conquistar outras? Por que não ser inteiro alma, não com uma sinceridade voraz, mas íntegra, pacífica e singela, mas, ainda sim, irrestrita? Por que não amar com a grandeza que o sentimento merece? Um amor fiel, indestrutível e completo?
Talvez porque, embora a vida seja única, ela é longa... e viver um único dia com a toda a intensidade que deve ser distribuída entre todos os outros pode ser um grande erro.

Então... é esse o limite?